
A cheia fora de época do Rio Gregório atingiu todas as 18 aldeias da Terra Indígena do Rio Gregório, em Tarauacá, durante o fim de semana, provocando alagamentos, perdas de roçados, prejuízos em criações de animais e danos em estruturas de energia e comunicação. A elevação rápida das águas afetou comunidades dos povos Yawanawa e Noke Ko’í em pleno mês de abril, período em que a região costuma iniciar a transição para a vazante e para o verão amazônico.
A situação mobilizou lideranças indígenas, equipes de emergência e órgãos do governo do Acre. Relatos enviados das aldeias apontam que a água avançou sobre áreas de moradia, espaços de circulação, plantações e pontos de embarque. Em algumas comunidades, famílias tiveram que reorganizar objetos, retirar pertences e buscar áreas mais altas para se proteger da enchente.
Entre as aldeias atingidas estão Mushuinu e Arani, onde moradores registraram o avanço da água sobre casas, caminhos e estruturas comunitárias. A subida do rio também comprometeu roçados de macaxeira, banana e outros alimentos usados na subsistência das famílias. A perda da produção preocupa porque muitas comunidades dependem diretamente dos roçados, da pesca, da criação de pequenos animais e da farinha para manter a alimentação nos próximos meses.
A cheia também trouxe risco de isolamento. Em áreas indígenas e ribeirinhas do Rio Gregório, o deslocamento depende do rio e de embarcações. Com a força da correnteza e a inundação de pontos de apoio, o acesso a algumas aldeias fica mais difícil, o que pode atrasar o envio de alimentos, água potável, medicamentos e outros itens de primeira necessidade.
O governo do Acre informou que mobilizou uma força-tarefa para atender as terras indígenas afetadas pelas cheias em Tarauacá e no Vale do Juruá. A operação envolve a Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas, a Defesa Civil Estadual, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos e o Corpo de Bombeiros. As equipes atuam no levantamento dos danos, no apoio logístico, no transporte em áreas isoladas e na organização da ajuda humanitária.
A governadora Mailza Assis afirmou que determinou o envio de assistência às comunidades indígenas e ribeirinhas atingidas. A secretária extraordinária dos Povos Indígenas, Francisca Arara, informou que o levantamento inclui perdas em roçados, criatórios, sistemas de energia solar e equipamentos de comunicação. O objetivo é identificar as necessidades mais urgentes e garantir que a ajuda chegue às famílias afetadas.
Embora o Rio Gregório concentre a situação mais grave, outros pontos do Acre também registraram impactos das chuvas durante o sábado e o domingo. No Vale do Juruá, o Rio Juruá voltou a transbordar em Cruzeiro do Sul, chegando a 13,08 metros neste domingo, acima da cota de transbordamento, que é de 13 metros. Foi a quinta vez em 2026 que o manancial ultrapassou esse nível no município.
A elevação do Juruá também mantém em alerta comunidades às margens de afluentes como os rios Môa, Liberdade e Juruá Mirim. Casas, plantações e áreas produtivas foram afetadas em diferentes pontos da região. Até a manhã de domingo, não havia pedido formal de retirada de famílias em Cruzeiro do Sul, mas a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros mantinham o monitoramento por causa das chuvas nas cabeceiras.
Também há registro de impactos em aldeias Shawãdawa e Apolima Arara, além de comunidades ribeirinhas e extrativistas. Na Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá, aldeias do povo Shawãdawa foram afetadas. No Rio Amônia, famílias Apolima Arara da aldeia Nova Vitória relataram falta de água potável, perdas em roçados e prejuízos em criações. Na Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, em Cruzeiro do Sul, comunidades como Passo da Pátria, Tristeza, Cavanhaque e moradores do Igarapé Forquilha também foram atingidos.
O fim de semana reforçou o cenário de instabilidade nos rios acreanos em abril. No início do mês, o governo estadual decretou situação de emergência em Cruzeiro do Sul, Feijó, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Tarauacá e Plácido de Castro, após inundações nas bacias dos rios Envira, Abunã, Purus e Tarauacá afetarem direta ou indiretamente mais de 40 mil pessoas.
A cheia do Rio Gregório chama atenção por ocorrer fora do período mais comum das grandes alagações. Em vez da vazante esperada para esta fase do ano, comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam novas elevações dos rios, com perdas materiais e risco à segurança alimentar. A prioridade das equipes de emergência é chegar às aldeias mais afetadas, mapear os prejuízos e garantir assistência às famílias que tiveram casas, alimentos, criações e estruturas comunitárias atingidas.