A COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) aprovou neste sábado (28), em Campo Grande, um Plano de Ação para Grandes Bagres Migratórios Amazônicos e decidiu incluir a ariranha nos anexos do tratado, em um pacote de medidas que amplia a cooperação entre países para proteger espécies diretamente ligadas à saúde de rios e áreas alagadas.
O plano aprovado trata da conservação de bagres de grande porte que percorrem longas distâncias na bacia amazônica ao longo do ciclo de vida, como a dourada e a piramutaba. A proposta foi liderada pelo Brasil e construída com participação de Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela no âmbito da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), com o objetivo de alinhar políticas e ações em territórios compartilhados por rotas migratórias e áreas de reprodução.
A estratégia prevê monitoramento das migrações, ampliação de pesquisas e integração de dados entre os países, além de medidas para preservar trechos críticos de habitat e incentivar práticas sustentáveis na pesca. O texto também reforça a participação de comunidades locais e povos indígenas na implementação das ações. A analista de conservação do WWF-Brasil Mariana Frias afirmou que “os grandes bagres, assim como os golfinhos de rio, são espécies sentinelas que dependem dos rios de livre fluxo para viajar centenas de quilômetros e cumprir seu ciclo de vida”.
Frias também apontou que ameaças aos ecossistemas de água doce se agravam com a falta de informações consolidadas e com impactos associados a atividades humanas de grande escala, como a fragmentação de cursos d’água. Para ela, a conservação de rios e de sua biodiversidade precisa entrar nas prioridades dos países amazônicos.
No mesmo conjunto de decisões, a ariranha, maior lontra do mundo e mamífero semiaquático típico de ambientes alagados, passou a integrar os anexos da CMS, que reúne espécies ameaçadas de extinção e aquelas que exigem cooperação internacional para proteção. A ariranha ocorre apenas na América do Sul e, no Brasil, está principalmente no Pantanal e na Amazônia, onde depende de água de qualidade e de áreas preservadas para manter seus grupos.
A espécie sofreu pressão histórica da caça associada ao mercado de peles, o que levou ao desaparecimento em alguns países, como a Argentina. Após a decisão, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, escreveu nas redes sociais que “o alerta amplia a proteção internacional e reforça que precisamos agir, juntos, e agora, para garantir a sobrevivência da ariranha, tão importante para o equilíbrio dos nossos rios”.
Com programação até domingo (29), a conferência entra na reta final em Campo Grande com expectativa de consolidar decisões e acelerar acordos que, na prática, devem pressionar governos por mais monitoramento, padronização de políticas e medidas de conservação em ecossistemas aquáticos, com reflexos sobre fiscalização, pesquisa e manejo pesqueiro nos próximos anos.