
Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identificaram um gene de uma espécie silvestre ancestral do amendoim capaz de ativar mecanismos de defesa em plantas cultivadas contra estresses como seca, fungos e nematoides, em um estudo divulgado em janeiro de 2026. A pesquisa, realizada em colaboração com instituições nacionais e internacionais, isolou o gene AdEXLB8 da espécie Arachis duranensis e demonstrou que sua inserção em culturas como amendoim, soja e tabaco induz um estado de prontidão defensiva, sem comprometer produtividade ou qualidade dos produtos.
Os experimentos mostraram que plantas transgênicas contendo o gene apresentaram maior tolerância à seca e resistência a patógenos como o fungo Sclerotinia sclerotiorum e aos nematoides-das-galhas Meloidogyne incognita e Meloidogyne javanica. Em raízes onde o gene foi superexpressado, a infecção por nematoides foi reduzida em até 60%, sem impactos negativos no desenvolvimento das plantas.
Segundo a pesquisadora Ana Brasileiro, líder do estudo, o gene não atua conferindo resistência direta, mas ativa um mecanismo conhecido como “priming de defesa”. “Quando a planta produz essa proteína constantemente, ela age como se estivesse sendo atacada por um patógeno ou sob estresse ambiental, passando a viver em um estado de alerta permanente, mas sem gastar energia demais”, afirmou. Esse estado de pré-ativação permite respostas mais rápidas e eficazes quando o estresse real ocorre.
A pesquisa teve origem na observação de que espécies silvestres do gênero Arachis apresentam maior rusticidade e tolerância a condições adversas, como seca e salinidade, características adquiridas ao longo de milhares de anos de evolução. Esse material genético é preservado pela Embrapa em um programa de conservação liderado pelo pesquisador José Valls, que mantém cerca de 1.500 acessos de espécies silvestres em um banco ativo de germoplasma, em Brasília.
De acordo com Valls, o Brasil é o principal centro de diversidade do gênero Arachis, com 84 espécies catalogadas, das quais 62 ocorrem no país e 43 são exclusivas. Ele ressaltou que a espécie Arachis duranensis, da qual o gene foi isolado, teve sua primeira coleta registrada em 1905, na Argentina, e passou a ser disponibilizada para pesquisa após a coleta de sementes em 1953. Desde 1977, materiais dessa espécie são preservados no Brasil, o que viabilizou a pesquisa atual. “Hoje, o gene AdEXLB8 demonstra importância científica ao ser associado à resistência da planta a múltiplos estresses, mostrando o valor da coleta e da conservação de germoplasma feita há 72 anos”, disse.
A pesquisadora Patricia Messemberg, que coordenou nos anos 2000 a caracterização molecular dessas espécies, destacou que muitas características de rusticidade foram perdidas durante o processo de domesticação do amendoim cultivado. “O nosso trabalho é explorar essa biodiversidade e transformar esse potencial em soluções para a agricultura”, afirmou, ressaltando que o avanço da biotecnologia permitiu transferir genes específicos de espécies silvestres para culturas comerciais sem alterar atributos como produção e qualidade.
O estudo também relaciona a descoberta ao papel histórico dos povos indígenas da América do Sul na domesticação e preservação da diversidade do amendoim. Evidências arqueológicas indicam que o grão era cultivado há mais de 5 mil anos, e comunidades como os Kayabi, no Parque Indígena do Xingu, mantêm até hoje dezenas de variedades, contribuindo para a conservação genética da cultura.
A tecnologia associada ao gene AdEXLB8 está em processo de patenteamento e vem sendo testada em outras culturas, como tomate, soja e algodão. Para os pesquisadores, a aplicação desses genes pode reduzir a necessidade de nematicidas e fungicidas químicos, contribuindo para uma agricultura com menor impacto ambiental e maior resiliência a mudanças climáticas.
Fonte: Embrapa