A estiagem severa que atingiu a Amazónia reduziu drasticamente o nível do rio Muru, no município de Tarauacá, no Acre, e trouxe à tona um ecossistema aquático até então desconhecido. O recuo extremo das águas revelou a formação de pequenos recifes compostos por milhares de ostras de água doce da espécie Bartlettia stefanensis. O habitat aflorou sobre plataformas de calcário, tornando-se visível exclusivamente devido à crise climática que secou os cursos de água da região de forma excecional.
As colónias do molusco fixaram-se apenas em blocos rochosos de calcrete no leito do rio, ignorando outras superfícies disponíveis, como troncos de árvores submersos ou estruturas de metal. Esta aglomeração densa em formato de recife representa uma configuração estrutural sem precedentes para a bacia amazónica. A exposição repentina do habitat alterou o entendimento sobre a biologia e o comportamento dos organismos bentónicos nesse ecossistema, exigindo uma verificação rápida dos registos científicos sobre a fauna local.
A presença maciça das conchas nos blocos de pedra surpreendeu os especialistas que percorriam a área afetada pela falta de chuva. “O rio estava muito baixo e os afloramentos de calcrete chamavam a atenção, até que notei que havia conchas em alguns. Sou do litoral de São Paulo e conheço bem bancos de ostras e mexilhões. Quando vi aquilo, pensei: o que isso está fazendo aqui?”, conta o biólogo Fabio Olmos. Sem informações prévias na literatura científica sobre a existência de recifes de ostras na Amazónia, a equipa documentou as estruturas biológicas diretamente no solo rachado do rio. “Documentamos o achado e, ainda em campo, consultamos colegas e a literatura científica. Não encontramos nada sobre esses recifes de ostras expostos ali”, acrescenta o investigador.
O aumento na frequência e na intensidade das secas extremas coloca em risco a viabilidade a médio e longo prazo desta e de outras espécies aquáticas. As oscilações drásticas na hidrologia e no volume dos rios causam a mortalidade em massa das colónias de ostras e impedem a recuperação natural das populações afetadas. A vulnerabilidade do ecossistema recém-descoberto impõe a implementação imediata de novas estratégias de monitorização ambiental e a reavaliação urgente do grau de ameaça da Bartlettia stefanensis para travar o colapso estrutural desta biodiversidade.
Fonte: O Eco