
Nove em cada dez professores da educação básica e do ensino superior, das redes pública e privada, já sofreram perseguição direta ou presenciaram episódios de censura contra profissionais da educação no Brasil, segundo pesquisa do Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras e Educadores, da Universidade Federal Fluminense, realizada em parceria com o Ministério da Educação e divulgada em dezembro de 2025 .
O levantamento ouviu 3.012 profissionais de todas as regiões do país e teve como foco principal identificar violências relacionadas à limitação da liberdade de ensinar, como tentativas de censura, perseguição política e impedimentos ao uso de materiais ou à abordagem de conteúdos previstos nos currículos. De acordo com o coordenador do estudo, professor Fernando Penna, a pesquisa buscou mapear práticas que visam impedir o exercício da docência, ainda que também tenham sido registrados relatos de violência física.
Os dados indicam que 61% dos professores da educação básica e 55% do ensino superior afirmaram ter sido vítimas diretas de algum tipo de violência ou censura. Entre os que sofreram censura diretamente, 58% relataram tentativas de intimidação, 41% questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho e 35% proibições explícitas de conteúdos. Também foram mencionados episódios de agressões verbais, mudanças forçadas de local de trabalho, remoções de cargo, demissões e, em menor proporção, agressões físicas.
Segundo a pesquisa, as situações de censura se espalham por todo o território nacional e atingem diferentes níveis e etapas da educação, envolvendo não apenas docentes em sala de aula, mas outros profissionais do ambiente escolar e universitário. Temas considerados obrigatórios nos currículos aparecem entre os mais questionados, como discussões sobre gênero, sexualidade, violência sexual, teoria da evolução, vacinação e outros conteúdos científicos. Penna afirmou à Agência Brasil que professores relataram impedimentos para tratar desses assuntos sob acusações de doutrinação ou pressão de setores internos e externos às instituições de ensino.
O estudo aponta que as principais motivações para os questionamentos e perseguições estão relacionadas a questões políticas, citadas por 73% dos respondentes, seguidas por temas de gênero e sexualidade, religião e negacionismo científico. A pesquisa também identificou que a maioria dos episódios ocorreu repetidas vezes, com parte significativa dos educadores relatando quatro ou mais ocorrências ao longo da carreira.
Quando questionados sobre os agentes da violência, os professores indicaram majoritariamente membros da própria comunidade educativa, como gestores, colegas, familiares de estudantes e alunos. Para o coordenador do levantamento, esse dado revela que a violência não se restringe a pressões externas, mas está incorporada ao cotidiano das instituições de ensino, refletindo tensões políticas mais amplas da sociedade.
A análise temporal do estudo mostra que os registros de violência contra educadores aumentaram a partir de 2010, com picos em 2016, 2018 e 2022, anos marcados por processos eleitorais e eventos políticos nacionais. Segundo Penna, esse crescimento está associado ao ambiente de polarização política, que acaba se refletindo no espaço escolar e universitário.
As consequências relatadas pelos professores incluem impactos profissionais e pessoais. Parte dos entrevistados afirmou que os episódios de censura e perseguição foram extremamente ou bastante impactantes em suas vidas, levando à insegurança, ao desconforto no ambiente de trabalho e, em alguns casos, ao abandono da profissão. O estudo registra que cerca de 20% dos educadores afetados mudaram de local de trabalho por iniciativa própria, enquanto outros relataram autocensura por se sentirem constantemente vigiados.
A pesquisa também aponta diferenças regionais, com maior incidência de relatos diretos de violência nas regiões Sudeste e Sul, embora o contato com situações de censura tenha sido registrado em todas as cinco regiões brasileiras. No total, 93% dos educadores afirmaram ter tido algum tipo de contato com episódios de censura, seja de forma direta, indireta ou por relatos de terceiros.
Como encaminhamento, o Observatório defende a criação de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores, com ações de proteção especialmente em períodos eleitorais, quando os episódios tendem a se intensificar. Segundo o estudo, essa política está em discussão no âmbito do Ministério da Educação, que mantém acordo de cooperação técnica com o Ministério dos Direitos Humanos. O relatório completo da pesquisa ainda será divulgado, com novos recortes e entrevistas em profundidade previstas para a próxima etapa do trabalho.