
Imagens do satélite Sentinel-2 estão sendo utilizadas para mapear cultivos de banana e pupunha no município de Jacupiranga, no Vale do Ribeira (SP), com o objetivo de apoiar políticas públicas, planejamento territorial e estratégias de sustentabilidade voltadas à agricultura familiar, segundo estudo publicado em 3 de fevereiro de 2026 pela Embrapa Agricultura Digital.
A pesquisa foi conduzida no âmbito do projeto Semear Digital, no Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga, por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Embrapa. Utilizando imagens da constelação Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia (ESA), e técnicas de classificação com base em inteligência artificial, o estudo alcançou mais de 93% de precisão na identificação de áreas agrícolas e de vegetação nativa, além de distinguir os cultivos predominantes na região.
Jacupiranga integra uma área marcada pela presença de Mata Atlântica, relevo acidentado, alta umidade e forte atuação da agricultura familiar, com predominância de pequenos lotes dedicados à produção de banana e pupunha. Esse cenário impõe desafios ao sensoriamento remoto, como cobertura frequente de nuvens e mosaicos complexos de uso do solo. Ainda assim, os resultados obtidos mostraram compatibilidade com estatísticas oficiais e com métodos de maior custo, como levantamentos realizados por drones.
Segundo Victória Beatriz Soares, aluna de mestrado em geografia da Unicamp e bolsista da Fapesp/Embrapa no projeto Semear Digital, o território do Vale do Ribeira é estratégico para o aprimoramento de métodos de mapeamento capazes de lidar com diversidade produtiva e contexto socioambiental específico. “A ideia é que o conhecimento e os métodos gerados por esse trabalho possam ser replicáveis e economicamente viáveis, permitindo que produtores, cooperativas e gestores públicos possam se beneficiar de informações qualificadas para a tomada de decisão”, afirmou.
O estudo também incluiu a pupunha como categoria independente no mapeamento agrícola, decisão considerada inédita em levantamentos tropicais. Em geral, pesquisas priorizam a banana devido à sua relevância comercial e extensão territorial. A inclusão da pupunha reflete o peso crescente do palmito na economia local e sua consolidação como alternativa produtiva associada a sistemas florestais manejados. O mapeamento específico permite acompanhar a expansão da cultura, avaliar impactos e subsidiar políticas públicas voltadas a cadeias produtivas.
Para diferenciar os usos da terra, os pesquisadores testaram índices espectrais capazes de interpretar a luz refletida pela vegetação. O NDWI, que mede a presença de água nas folhas, apresentou desempenho superior ao NDVI, voltado ao vigor da vegetação, e ao BSI, que diferencia solo e cobertura vegetal. Em ambiente úmido como o Vale do Ribeira, o índice hídrico contribuiu para separar culturas perenes, cultivos anuais e pastagens, ampliando a precisão do mapeamento.
Os autores apontam que informações detalhadas sobre ocupação agrícola podem orientar ações de assistência técnica, programas de desenvolvimento sustentável e estratégias de adaptação às mudanças climáticas. O estudo identificou que sistemas produtivos diversificados apresentam maior resiliência climática, além de contribuírem para conservação do solo, proteção de nascentes e manutenção da biodiversidade.
A experiência integra um movimento de expansão da agricultura digital no Brasil. Levantamentos nacionais da Embrapa indicam que 84% dos produtores rurais já utilizam algum tipo de tecnologia digital, enquanto 95% demonstram interesse em ampliar o uso dessas ferramentas. Embora a adoção esteja concentrada em áreas de maior escala produtiva, o estudo sustenta que tecnologias acessíveis e de uso público, como as imagens do Sentinel-2, podem beneficiar agricultores familiares e comunidades tradicionais.
Para Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e um dos autores do trabalho, a digitalização no campo amplia o acesso a ferramentas de gestão e sustentabilidade. “A adoção de tecnologias digitais na agricultura brasileira, além de impulsionar a eficiência produtiva, também democratiza o acesso a ferramentas de gestão rural e amplifica ações de sustentabilidade”, declarou.
Kátia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coautora do estudo, acrescenta que o monitoramento digital permite detectar problemas fitossanitários em áreas extensas e de difícil acesso, subsidiando decisões do poder público.
O projeto Semear Digital é liderado pela Embrapa Agricultura Digital, com financiamento da Fapesp, e atua em dez Distritos Agrotecnológicos distribuídos pelo país, com foco na ampliação do acesso à internet, validação de tecnologias digitais e capacitação de produtores, técnicos e extensionistas. Os pesquisadores defendem que a integração entre ciência, tecnologia e políticas públicas pode fortalecer a agricultura familiar e equilibrar produção agrícola e conservação ambiental em regiões de alta diversidade produtiva.
Fonte: Embrapa