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Israel Souza

Bolsonaro e a política – relações de poder e arte de governo

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​Israel Souza

Considerado um dos principais nomes da Ciência Política do Século XX, Norberto Bobbio – um liberal, vale registrar – dizia que, normalmente, usa-se o termo “política” para “designar a esfera das ações que têm relação direta ou indireta com a conquista e o exercício do poder último (supremo ou soberano) sobre uma comunidade de indivíduos em um território”.

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​Essas relações de poder, a depender dos que são nelas implicados, assumem matizes diversos. Para ser mais claro, entre outras tantas coisas, elas podem dizer respeito à relação entre governantes e governados (englobando dos sistemas mais democráticos aos mais autoritários) e aos que disputam entre si o “poder último” cuja sede, geralmente, é o Estado.

Por sua vez, também as relações entre os que disputam entre si o “poder supremo” podem assumir formas variadas. Eles podem se tratar como adversários com relativa cordialidade ou, mesmo, podem se tratar como inimigos, podendo a disputa assumir como desfecho a eliminação de uma das partes.

​Os adversários são tão importantes nessas disputas que, quando não existem, é preciso inventá-los E aí o limite é a imaginação. Quanto mais o “inventor” quiser se legitimar, mais o inimigo – inventado – deve assumir feição perigosa, repulsiva. Em outras palavras, o “herói” será tão mais necessário e virtuoso quanto mais perigoso for o “vilão” por ele criado e contra o qual ele combate.

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​Ora, olhando a política a partir dessa dimensão sua, pode-se dizer que Bolsonaro foi um político bastante astuto. Toda sua trajetória foi feita com base nas polêmicas, nas brigas cênicas contra a bandidagem, contra o “politicamente correto”, contra Paulo Freire, contra a “Globolixo”, contra a “ideologia de gênero”, contra “o sistema”, contra o “marxismo cultural”, contra o – não poderia deixar de citá-lo – “comunismo” etc.

​As lutas que travou contra esses e outros tantos “vilões” deram a ele sucessivos mandatos, para ele e alguns de seus filhos, culminando na conquista da presidência. Segundo entendemos, esse seu maior êxito preparou o terreno para seu maior fracasso. É que a polêmica e a agitação foram eficazes em sua atuação no Legislativo, permitindo-lhe inclusive prescindir do ofício de legislar, mas não ajudaram muito e até atrapalharam em sua atuação no Executivo.

​Como é de se supor, no Executivo, é preciso mais que polêmica, encenação e brigas com moinhos de vento. É preciso executar, mostrar trabalho, por assim dizer. Numa palavra: é preciso governar. E isso tem relação direta com outra dimensão da política.

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Ainda de acordo com Bobbio, o termo “política” é derivado do adjetivo “pólis”, “significando tudo aquilo que se refere à cidade” e, por conseguinte, à “arte ou ciência do governo”. Bobbio lembra, ainda, duas metáforas de que alguns se valeram ao longo da história para referir a responsabilidade do governante. Uma delas é a do navegante. O governante seria aquele que, como o navegante, guiaria o barco (a comunidade política), mantendo-o na rota certa, evitando que se perca ou pereça. Outra metáfora é a do médico. Nesta condição, o governante curaria os males e as pragas do corpo (político), impedindo que caia enfermo e morra.

Ora, por tudo que fez na presidência, dificilmente poderíamos definir com justeza Bolsonaro como um navegante, tal como descrito acima. Não foram poucas as vezes que ficamos como que a deriva. Bolsonaro trabalhou menos que qualquer outro presidente brasileiro de que temos notícias. Já demonstraram que ele trabalhou menos que 5 horas por dia, menos que um estagiário. Mesmo em momentos dramáticos, como quando a Bahia foi duramente castigada por chuvas que deixaram vários mortos, mostrou preferir seu divertimento como indivíduo à responsabilidade de governante que deveria assumir.

Neste como em outros momentos difíceis que atravessamos, Bolsonaro se notabilizou por seus destemperos, obscenidades, piadas, ofensas, motociatas, lanchaciatas etc., coisas que mais alimentaram do que sanaram as crises. Quando mais precisou, o povo sofredor se viu abandonado.

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Por outro lado, a pandemia do novo Coronavírus mostrou sobejamente que Bolsonaro não poderia atuar como médico para impedir o adoecimento do corpo político. Nunca poderemos esquecer que, contra toda ciência médica, defendeu a “imunidade de rebanho” e a Cloroquina (entre outras sandices), independentemente das centenas de milhares de mortes que isso pudesse significar – e, no fim, significou. Isto é, ao invés de atuar no sentido de impedir que a doença se alastrasse pelo corpo, atuou no sentido contrário, criando as condições favoráveis para a propagação de um vírus mortal entre nós. Tanto em números absolutos quanto em percentuais, figuramos no topo desse vergonhoso ranking.

Pelo que vimos até aqui, claro deve ter ficado que Bolsonaro bem compreende a política na sua dimensão que se refere às relações de poder, aos conflitos, mas a ignora em sua dimensão de arte ou ciência do governo. Podemos dizer que durante todo seu primeiro mandato ele lutou por um segundo mandato. Nunca desceu do palanque. Não teve governo. Teve campanha ininterrupta. Não foi, portanto, depois da derrota para Lula que ele abandonou o governo. Na verdade, ele nunca o assumiu.

Não bastou não ser o Lula. Não bastou ser antipetista. Não bastou “desconstruir”. Sem nada a colocar no lugar, “desconstruir” equivale a destruir. Não há como se afirmar só com isso. Para ele, infelizmente, numa democracia (permitam-me usar essa definição sem maiores precisões no momento), é preciso conquistar o favor do povo. Como se negou a cumprir minimamente suas funções de governante, continuou com suas polêmicas e bravatas, como se ainda estivesse no Legislativo.

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Sem nada de relevante a apresentar ao povo que pudesse reconduzi-lo ao cargo de presidente, perdeu, tornando-se o primeiro presidente, desde a redemocratização, que não conseguiu se reeleger, mesmo tendo usado e abusado da máquina pública como nenhum outro ousou fazer. Tivesse permanecido como deputado do baixo clero, não teria que passar por isso. Sua ambição, porém, o levou a buscar algo para o quê nunca esteve preparado nem quis se preparar.

Resultado: maior que sua ascensão, foi seu tombo. Agora passará à história como o pior presidente do Brasil, com grandes chances de ser preso.

E se, a exemplo de Lula, ele retornar e vier mais fortalecido? Ele não levou quase metade dos votos, revelando um país extremamente dividido? O bolsonarismo não é, no momento, a única força política capaz de rivalizar com o petismo?

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Bem. Esses e outros temas serão abordados em uma série de textos que vamos escrever ao longo das próximas semanas, procurando refletir sobre nossa realidade política, sobretudo, à luz da Filosofia Política, da Ciência Política, da Economia Política e da Sociologia. Esse texto foi, portanto, apenas um ponto de partida.

Referências Bibliográficas
BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a Filosofia Política e as lições dos clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.
BOBBIO, Norberto. O filósofo e a política: antologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.

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Israel Souza

Formado em Ciência Política e Mestre em Desenvolvimento Regional. Professor e pesquisador do Instituto Federal do Acre/Campus Cruzeiro do Sul.

É autor dos seguintes livros: Democracia no Acre: notícias de uma ausência (PUBLIT, 2014), Desenvolvimentismo na Amazônia: a farsa fascinante, a tragédia facínora (EDIFAC, 2018) e A política da antipolítica no Brasil, Vol. I e II (EaC Editor).

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