As falas de lideranças indígenas e representantes do governo estadual concentraram o debate, nesta quinta-feira (23 de abril de 2026), durante o evento do Mês dos Povos Originários realizado na sede da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi), em Rio Branco. A programação reuniu rituais, atividades culturais e atendimentos de serviços públicos, mas o eixo do encontro ficou marcado pelas demandas apresentadas em público, com ênfase em mudanças climáticas, políticas de proteção às mulheres e a necessidade de recuperar a educação escolar indígena nos territórios.
Na abertura, a secretária extraordinária dos Povos Indígenas, Francisca Arara, defendeu que a data não se limite à celebração e sirva como espaço de articulação permanente entre instituições e comunidades. “Este é um momento de celebração, valorização e preservação cultural, mas também de fortalecimento institucional e da autonomia dos povos indígenas. As políticas públicas só se concretizam com parcerias e compromisso, e é isso que estamos construindo juntos”, afirmou, ao associar o encontro a compromissos práticos do poder público.
O tom de afirmação cultural apareceu na fala do jornalista Nelson Liano, que resumiu a dimensão simbólica do evento ao falar de identidade e pertencimento. “O mais importante que está acontecendo é a retomada do orgulho das culturas indígenas”, disse, em um discurso que colocou a visibilidade das tradições como parte do processo de fortalecimento das comunidades.
A pauta das mulheres indígenas entrou no centro do debate com a fala de Xiú Shanenawá, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (Sitoakore). “Estar aqui é fortalecer a cultura, reconhecer o trabalho das parteiras, valorizar as ervas medicinais e empoderar as mulheres indígenas na luta por seus direitos”, declarou, ao conectar valorização de saberes tradicionais com autonomia e proteção social.
Representantes de secretarias estaduais também apresentaram frentes de atuação ligadas às reivindicações citadas ao longo do evento. Pela Secretaria da Mulher, Pamela Manchineri afirmou que a participação teve foco em acolhimento e orientação sobre violência doméstica. “Realizamos escutas e ações de orientação sobre a Lei Maria da Penha, levando informação e apoio às mulheres indígenas”, disse. Na área ambiental, o diretor de Meio Ambiente da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Erisson Santiago, relacionou a agenda indígena à preservação e citou o papel dos povos tradicionais na proteção dos territórios. “Precisamos reconhecer o papel fundamental dos povos indígenas na preservação do meio ambiente”, afirmou, em um contexto em que a discussão sobre mudanças climáticas apareceu como uma preocupação transversal do encontro.
No campo da produção e da segurança alimentar, o técnico da Secretaria de Agricultura Adriano Dias afirmou que o governo trabalha na construção do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena em parceria com a Sepi. “Estamos desenvolvendo o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena em parceria com a Sepi”, disse, ao tratar a medida como uma frente de incentivo a cadeias produtivas nos territórios. Já Vera Olinda, coordenadora executiva da Comissão Pró-Indígenas do Acre, colocou a educação como prioridade e defendeu que o tema volte ao centro das políticas públicas. “Diante de tantas crises, temos o compromisso importante de retomar a educação escolar indígena nos territórios”, afirmou.
Com rodas de conversa e participação de diferentes povos, o evento foi usado como espaço de escuta e alinhamento entre lideranças e órgãos públicos, em uma tentativa de transformar declarações em encaminhamentos. O principal teste a partir de agora será a capacidade de manter as pautas citadas nas falas — proteção às mulheres, respostas à crise climática, fortalecimento da produção e retomada da educação escolar indígena — como ações continuadas e mensuráveis dentro dos territórios.