Durante a Google I/O, na Califórnia, nesta quinta-feira (21), o Sebrae afirmou que o principal obstáculo para o avanço da inteligência artificial entre micro e pequenas empresas brasileiras deixou de ser o acesso às ferramentas e passou a ser a capacitação para usá-las na rotina dos negócios. A avaliação foi apresentada no painel “The Economic Engine: How AI is Driving Growth”, que reuniu representantes do setor público e privado para discutir os efeitos da tecnologia sobre produtividade e competitividade.
A leitura levada pelo Sebrae parte de um descompasso entre conhecimento e uso efetivo da IA no país. Entre os donos de pequenos negócios, 96% dizem conhecer essas ferramentas, mas só 46% as utilizam no dia a dia das operações. O dado reforça a distância entre a popularização do tema e a incorporação prática da tecnologia na gestão, nas vendas e no relacionamento com clientes.
Segundo a instituição, o custo deixou de ser o principal freio. Só 13% dos empresários apontam o preço das ferramentas como maior dificuldade, enquanto 23% dizem não saber como aplicar a inteligência artificial ao próprio modelo de negócio. A discussão, portanto, saiu do campo do acesso e entrou no da formação, da adaptação de processos e da tradução da tecnologia para a realidade das empresas menores.
Esse cenário aparece junto com outra limitação estrutural. Mais da metade dos pequenos negócios no Brasil ainda não usa sistemas integrados de gestão, e só uma parcela menor trabalha com ferramentas estruturadas de relacionamento com clientes. Mesmo quando há presença digital, como no uso do WhatsApp Business, essas soluções muitas vezes operam de forma isolada, sem integração com dados, automação e tomada de decisão.
A defesa do Sebrae é que a inteligência artificial só traz ganho real quando encontra uma base mínima de organização digital. Sem dados estruturados e fluxos internos mais maduros, o uso de ferramentas generativas tende a ficar restrito a tarefas pontuais, sem impacto mais amplo sobre produtividade ou competitividade.
A participação da entidade na principal conferência anual do Google também foi usada para reforçar o peso das micro e pequenas empresas na economia brasileira. O segmento reúne 95% das empresas formais do país e responde por 30% do PIB. A aposta do Sebrae é ampliar sua atuação como ponte entre o desenvolvimento tecnológico discutido nos grandes centros de inovação e a aplicação concreta dessa agenda no cotidiano do empreendedor brasileiro.
No evento, a instituição também destacou o avanço de parcerias com big techs e a expansão de investimentos em infraestrutura de nuvem, além do incentivo a startups que desenvolvem soluções de IA voltadas ao mercado nacional. A estratégia é reduzir a distância entre o que é lançado nos centros globais de tecnologia e o que de fato chega, com utilidade prática, às pequenas empresas no Brasil.