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Economia e Industria

Fim da escala 6×1 e jornada de 40 horas entram na pauta do governo e miram sobrecarga das mulheres

O governo federal passou a defender publicamente, neste 8 de março de 2026, um debate no Congresso e com trabalhadores e empregadores para reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e acabar com a escala 6×1, em que se trabalha seis dias para folgar um. A proposta, que busca avançar para um modelo 5×2, ganhou força com o argumento de que pode aliviar a dupla jornada que recai sobre as mulheres, que acumulam emprego formal e trabalho doméstico não remunerado.

Em Brasília, a cobradora de ônibus Denise Ulisses, de 46 anos, disse que a rotina de trabalhar de segunda a sábado e folgar apenas no domingo limita o descanso e o tempo de lazer. Ela contou que, além do trabalho no transporte coletivo, a vida é preenchida por tarefas de casa e pela criação dos dois filhos, hoje com 18 e 22 anos. “Eu sairia na sexta-feira à noite para o sítio e só voltaria no domingo à noite. Então, este seria um tempo bom de folga: dois dias”, afirmou.

Dados da Pnad Contínua de 2022, do IBGE, usados no debate, mostram que as mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11,7 horas dos homens — uma diferença de 9,6 horas por semana. Entre mulheres pretas e pardas, o tempo no trabalho doméstico não remunerado é 1,6 hora a mais por semana em comparação com mulheres brancas.

A secretária nacional de Articulação Nacional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, disse que a revisão da escala tem impacto direto na divisão de tarefas em casa. “Na soma entre o trabalho doméstico e o trabalho formal, nós trabalhamos muito mais do que os homens”, afirmou. Para ela, a mudança pode abrir espaço para repartir responsabilidades de cuidado. “O cuidado tem que ser compartilhado entre homens e mulheres. Isso não é uma questão só cultural. É também de os homens terem mais tempo em casa para compartilharem o cuidado.”

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O peso da escala também aparece na rotina de Tiffane Raane, auxiliar de serviços gerais em uma rede de academias do Distrito Federal. Ela trabalha das 7h às 18h, com uma hora de almoço, de segunda a sexta-feira, e ainda soma sábado ou domingo alternadamente a cada semana. Fora do expediente, cuida da casa e do filho de 7 anos, e disse que paga R$ 350 por mês a uma cuidadora para cobrir o período em que a criança está fora da escola. “Eu chego tarde do trabalho. Estou cansada e ele também”, relatou, ao explicar a dificuldade de acompanhar atividades escolares e o adiamento do retorno à faculdade.

A pressão por mudanças também chegou ao Ministério das Mulheres por meio da Articulação Nacional de 8 de Março, que reúne mais de 300 organizações e entregou um manifesto cobrando o fim da escala 6×1. O texto afirma que “esse modelo rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”.

Uma pesquisa de opinião da Nexus, realizada entre janeiro e fevereiro de 2026, apontou que 84% dos brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso semanal e que 73% apoiam o fim da escala 6×1 desde que os salários sejam mantidos.

Entidades empresariais, porém, contestam a proposta. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima aumento de custo de até R$ 267 bilhões por ano e aponta risco de queda da atividade econômica caso as horas não sejam repostas. Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) calcula que a redução do limite constitucional de 44 para 40 horas pode elevar preços ao consumidor em até 13% e projeta custos adicionais de R$ 122,4 bilhões por ano no comércio, defendendo que eventuais mudanças passem por negociação coletiva.

Do lado sindical e acadêmico, um estudo do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp) trabalha com um cenário oposto, estimando que o fim da escala 6×1 beneficiaria pelo menos 37% dos trabalhadores e poderia gerar 4,5 milhões de empregos, com ganho de produtividade.

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No Congresso, a discussão está concentrada na Câmara dos Deputados. Em fevereiro, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou uma proposta de emenda à Constituição à Comissão de Constituição e Justiça, com previsão de que o tema siga para comissão especial, e afirmou considerar viável uma votação em plenário em maio. O governo sinalizou pressa: o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, disse que o Executivo pode enviar um projeto de lei com urgência para unificar propostas em tramitação, caso o assunto não avance na “velocidade desejada”.