Pesquisas realizadas em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, associaram a transformação da floresta à presença de insetos transmissores da leishmaniose e da doença de Chagas. Os estudos, publicados em abril e maio de 2026, mostram que o tempo de ocupação humana favorece a abundância de mosquitos-palha e que a perda de cobertura florestal, combinada à proximidade de palmeiras e moradias, aumenta a probabilidade de encontrar barbeiros infectados. Os resultados ajudam a compreender como o desmatamento pode modificar o risco de transmissão dessas doenças na Amazônia.
Os trabalhos foram conduzidos por uma equipe liderada pelo biólogo Gabriel Laporta, do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), com participação de pesquisadores de outras instituições, incluindo a Universidade Federal do Acre (Ufac). As investigações receberam financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e de programas de apoio à pesquisa amazônica. As coletas ocorreram em 2022 e 2024, em áreas rurais com diferentes níveis de conservação e ocupação.
Na investigação sobre leishmaniose, publicada em 30 de abril na revista Parasites & Vectors, os cientistas analisaram 20 pontos do assentamento Santa Luzia. A espécie Nyssomyia antunesi predominou entre os mosquitos-palha capturados. A quantidade desses insetos teve relação mais forte com o tempo decorrido desde o início do desmatamento do que com a proporção atual de floresta ou a fragmentação da paisagem.
A associação mostra que ambientes modificados podem manter populações de vetores durante anos. A ocupação prolongada transforma as condições ao redor das casas, incluindo a presença de animais domésticos, matéria orgânica e locais sombreados e úmidos, que podem favorecer os insetos. O estudo, porém, não encontrou uma relação clara entre as características da paisagem e a ocorrência de infecção por Leishmania nos mosquitos coletados. A pesquisa também não mediu diretamente o aumento de casos humanos.
Em Cruzeiro do Sul, a leishmaniose cutânea apresenta taxa média anual de aproximadamente três casos por 10 mil habitantes. A doença é transmitida pela picada de fêmeas infectadas do mosquito-palha e pode causar feridas na pele, com possibilidade de atingir as mucosas do nariz e da boca. A forma visceral é distinta e pode comprometer órgãos internos.
A pesquisa sobre doença de Chagas, publicada em 18 de maio na revista PLOS One, examinou barbeiros encontrados em palmeiras próximas a residências. Os cientistas coletaram 55 insetos do gênero Rhodnius e analisaram a presença de parasitas por técnicas moleculares. A probabilidade de infecção pelo Trypanosoma cruzi foi maior nas paisagens mais desmatadas, com influência da distância entre as palmeiras e as casas.
A análise do sangue ingerido pelos insetos encontrou principalmente animais silvestres, como marsupiais. Em uma das amostras, os pesquisadores identificaram sangue humano em uma ninfa coletada a 33 metros de uma residência habitada. O resultado mostra que o contato entre o ciclo silvestre do parasita e as pessoas pode ocorrer mesmo sem a instalação de colônias de barbeiros dentro das casas.
A doença de Chagas pode ser transmitida pelo contato das fezes de barbeiros infectados com feridas ou mucosas e também pela ingestão de alimentos e bebidas contaminados. Na fase aguda, podem ocorrer febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza e inchaço. Sem diagnóstico e tratamento adequados, a infecção pode provocar complicações cardíacas e digestivas. O benznidazol é fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Os resultados não significam que toda área desmatada terá mais casos dessas doenças. As pesquisas são observacionais, foram realizadas em locais específicos e avaliaram principalmente a ecologia e a infecção dos vetores. Para a vigilância em saúde, os dados apontam a necessidade de considerar o histórico de uso da terra, as condições ao redor das moradias e a proximidade de habitats naturais, além da quantidade de floresta remanescente.
O grupo também desenvolve uma nova etapa voltada à restauração de áreas degradadas com espécies nativas amazônicas. A proposta é acompanhar, ao longo do tempo, como a recuperação ambiental pode afetar variáveis relacionadas à saúde. Um trabalho anterior, divulgado em 2025, já havia associado paisagens parcialmente degradadas a maior risco de malária. A eficácia da restauração para reduzir a transmissão de leishmaniose e Chagas ainda precisa ser medida.