Connect with us

Economia e Industria

Produção recorde e preços em queda expõem desafios e caminhos para o mercado de leite em 2026

O mercado de leite entra em 2026 com produção em alta e preços ao produtor em retração, num cenário em que a oferta segue acima do ritmo de absorção do consumo interno e a concorrência com importados permanece no radar, especialmente para itens como leite em pó. O resultado é um início de ano marcado por margens apertadas nas fazendas, pressão nas negociações entre indústria e varejo e uma corrida por eficiência na porteira, enquanto entidades e centros de pesquisa apontam que a virada do ciclo depende menos de medidas pontuais e mais de produtividade, gestão e espaço para exportar excedentes.

A fotografia do fim de 2025 ajuda a explicar por que 2026 começa com o setor em alerta. O Cepea registrou que o preço do leite ao produtor na “Média Brasil” caiu pelo nono mês consecutivo e fechou dezembro de 2025 em R$ 1,9966 por litro, recuo de 5,78% frente a novembro e de 25,79% na comparação com dezembro de 2024, em termos reais (deflacionado pelo IPCA). No acumulado de 2025, a desvalorização real chegou a 25,8%, e a média anual ficou em R$ 2,5617 por litro, 6,8% abaixo de 2024.

Do lado da produção formal, os números do IBGE apontam volumes elevados ao longo de 2025. No terceiro trimestre, a aquisição de leite cru somou 7,01 bilhões de litros, alta de 10,2% sobre o mesmo período de 2024. No quarto trimestre, a aquisição foi de 7,34 bilhões de litros, avanço de 8,2% na comparação anual e de 4,8% frente ao trimestre anterior. Em paralelo, o Cepea indicou que, apesar de recuos pontuais no fim do ano, a captação acumulou alta em 2025 e os estoques de derivados sustentaram a pressão sobre os preços, num contexto em que as importações continuaram relevantes e as exportações recuaram.

É nessa combinação — mais leite disponível, estoques cheios e disputa por mercado — que se forma o pano de fundo para 2026. Em análise divulgada no fim de fevereiro, o Poder360 apontou crescimento estimado de 7,2% na produção em 2025 e relacionou a sequência de quedas do preço médio pago ao produtor à sobreoferta doméstica e ao volume de importações, com déficit em “litros equivalentes” na balança. Na mesma linha, reportagem do Agro em Campo descreve um começo de 2026 pressionado por oferta elevada e juros altos, num ambiente em que a volatilidade cambial pode alterar rapidamente a competitividade do leite importado no mercado interno.

Advertisement

No custo de produção, a queda do preço do leite não foi acompanhada por uma redução proporcional das despesas da atividade. O Cepea observou relativa estabilidade de custos em 2025, com o Custo Operacional Efetivo (COE) subindo 0,57% na Média Brasil, mas destacou que a valorização do milho piorou a relação de troca no fim do ano, exigindo mais litros de leite para comprar uma saca do grão. O efeito prático é que a compressão da receita na fazenda tende a aparecer mais rápido do que eventuais ganhos de eficiência, sobretudo para sistemas mais dependentes de compra de insumos.

No cenário internacional, a oferta também entra elevada em 2026, o que limita um alívio rápido via preços globais. O Poder360 registra a avaliação do pesquisador Samuel Oliveira, da Embrapa Gado de Leite, de que os preços internacionais seguem baixos no início do ano e que altas vistas em leilões da Global Dairy Trade devem ser lidas como “correções pontuais”. Essa leitura reforça a ideia de que, mesmo com alguma recuperação sazonal na entressafra, o piso do mercado pode continuar condicionado ao ritmo da produção e ao câmbio, especialmente se a valorização do real baratear importações em momentos de consumo mais fraco.

Para o produtor, o que está em jogo em 2026 é atravessar um ano em que a oferta segue alta sem depender apenas de um repique de preços. A recomendação de cautela e planejamento aparece associada a ações que já viraram rotina nas propriedades mais organizadas: controle de custos por litro, manejo para estabilizar produção ao longo do ano, ganho de produtividade por vaca e por área, qualidade para melhorar remuneração por sólidos e decisões mais conservadoras de investimento em um ambiente de juros elevados. Ao mesmo tempo, a discussão estrutural volta ao centro: o país tem produtores e regiões com desempenho capaz de competir, mas ainda convive com grande desigualdade tecnológica, o que dificulta transformar excedente em exportação consistente sem penalizar o preço interno.

Se 2025 terminou mostrando que produzir mais, sozinho, derruba o preço quando o consumo não acompanha, 2026 começa apontando o caminho inverso: ajustar crescimento à demanda, reduzir custo unitário e criar condições para ampliar mercado — dentro e fora do país — como forma de tirar o setor do ciclo de sobe-e-desce de produção e preços.

Advertisement